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CARTAS QUE NUNCA ENVIEI ...


PARTE I


Você já deve ter se perguntado alguma vez como seria a vida após a morte, eu estive frente a frente com ela, e sobrevivi, por sorte, ou porque Deus não quis, 
talvez porque era cedo demais para eu partir.
Nós vivemos em uma sociedade onde cada dia que passa se prolifera o "desamor", uma pessoa com depressão é sempre motivo de dúvida, "Ah! Ela faz isso para chamar a atenção...", "Ele fica triste porque se magoou com a namorada e finge que seu mundo vai acabar!", "Ou que bobagem! Levante-se dâe e vamos tomar todas!", e "Olha como ela é falsa! Finge que está sofrendo!". Mas a depressão é um problema, e nem todos vêem isso.
Eu me lembrava de todas as coisas duras por qual passei sempre na mesma época, me trancava em meu quarto e chorava como se minha dor nunca fosse acabar e as vezes tudo o que eu esperava é que alguém entrasse pela fresta da porta e me abraçasse e me dissesse coisas maravilhosas, só que isso nunca acontecia.
Fui criada em uma igreja tradicional, não que a culpa seja da igreja, eu acho que o erro está no 
modo como as pessoas entendem as coisas e as passam para as outras.
"Você só pode fazer sexo depois do casamento, quem faz antes vai para o inferno.", e "A mulher que não é virgem é rejeitada por todos os homens, porque ninguém irá querer casar com quem não é virgem."Isso foi o que eu ouvi, aos 8 anos de idade, depois que todas aquelas coisas tinham acontecido.
Talvez para a cabeça de uma criança de sete anos fosse difícil de mais compreender que quando tentam "arrancar sua virgindade" você não está pecando, você não escolheu isso, e não fez isso por prazer, mas por quase oito anos eu vivi assim, com medo.
Eu tinha medo de perder pessoas por não saber mantê-las, eu tinha medo de engravidar muito cedo (e isso é até bom por um lado), mas o pior de todos os
medos se mostrava quando eu estava sozinha em casa e estava caindo um temporal, ou uma tempestade, porque eu sempre corria desesperada para a cama, dobrava os joelhos e pedia a Deus perdão desesperadamente para não morrer porque ironicamente eu tinha "pecado" sem saber, e tinha medo de que raios caíssem sobre minha cabeça, literalmente.
Era muito comum que meus pais assistissem novela, e sempre haviam cenas mais quentes, nessas horas eu sempre era mandada para o quarto, eu não podia ver aquilo, mas um dia, com oito anos, ao escutar uma das falas da atriz, aproximei-me de meu pai e perguntei: "Pai,o que é sexo?", papai encarou mamãe, eles se entreolharam por um tempo, como se estivessem surpresos e em duvida se deviam me contar ou não, e eu escutei exatamente essas frases, meu mundo instantaneamente caiu, e eu me senti tão suja que nada poderia
me "limpar" pelos próximos 7 anos seguintes, tanto que não poderia limpar que guardei para mim: a dor e a culpa, mesmo não sendo culpada, eu as acumulei dentro de mim.
Eu era uma criança meio sozinha, não me acostumava com maquiagens ou sapatos da moda e não conseguia interagir com pessoas assim, eu sofria bulliyng na escola também, e era difícil para mim interagir em brincadeiras ou em grupos grandes, eu não podia ir a festas, ou brincar com meninos, porque tudo isso eram precauções para evitar o pior, que já havia acontecido e meus pais nem imaginavam.
Eu não conseguia interagir com minhas primas porque tinha medo de ser taxada de medrosa ou idiota, acabava 
por fim sempre preferindo brincar sozinha ou com os insetos, eu os machucava as vezes, mas eles não me machucavam.
Estive frente a frente com a morte no ano de 2011, como as datas que naturalmente sucedem uma sequencia notória de fatos, era um dia chuvoso, eu havia escutado anteriormente insultos, fui enganada, e eu já imaginava o que seria, briguei com uma grande amiga da época, e pior, eu estava naquele ano.
Por um momento eu senti raiva de existir, eu chorava e minhas lágrimas corriam tão rápido quanto a chuva, mas as cenas passam lentamente sobre minha mente: o muro da escola, os degraus da escada a baixo, corredores quase vazios. Era quase recreio, as pessoas indo para suas salas e eu correndo atras de alguém em meio a multidão que pudesse me consolar, eu abraçada com uma amiga que chorava comigo, corpos frios, grama fria, gotas de chuva gelada, lágrimas quentes, coração destruído, e segue-se a sequência, minutos após minha quase morte, eu procurando consolo na igreja mais próxima:
- Moça, o pastor dessa igreja está?
- Não minha jovem, eu apenas estou limpando, há algo que eu possa fazer por você?
Rosto vermelho, olhos roxo, os vidros embaçados daquele ônibus, e ao entrar na rua da minha casa eu me deparei com a morte mais uma vez, pessoas vagavam em meio a chuva levando consigo um caixão na mão, alguém havia morrido e naquele momento era como se eu tivesse um ímã e ele puxasse todas as coisas negativas para mim, e na realidade, quando você é uma pessoa triste você atrai coisas negativas.
Aquele foi um dia horrível, mas depois daquele dia, tudo mudou.


Para ler a PARTE II clique AQUI!


Um comentário:

  1. Texto forte!

    É uma pena que os problemas passem despercebidos por pessoas próximas de nós.Isso das igrejas é bem verdade,o problema não é a religião em sim mas a maneira como as coisas são moduladas e como algumas pessoas não tem a mínima noção de como falar de certos assuntos com as crianças.

    Poesia em Transe

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Obrigada pela atenção. Assim que possível estarei respondendo :)

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